Escolher mal a época ou a região é o motivo mais comum de quem volta do Pantanal sem ver uma onça-pintada, lição conhecida por entusiastas como Wilson Bachega Junior. Nos últimos anos, um ponto de Mato Grosso passou a concentrar boa parte das expedições de observação do felino: a região de Porto Jofre, no fim da Transpantaneira, onde o turismo de onça-pintada se transformou em atividade econômica de peso.
Porto Jofre e o Encontro das Águas
Porto Jofre pertence ao município de Poconé e fica ao fim dos cerca de 147 quilômetros de estrada de terra da Transpantaneira, que corta fazendas, pontes de madeira e áreas alagáveis. Dali partem os barcos que percorrem os rios do Parque Estadual Encontro das Águas, criado em 2004, com cerca de 108 mil hectares entre Poconé e Barão de Melgaço.
O parque reúne rios como o Cuiabá, o Piquiri e o Três Irmãos e é apontado como uma das áreas com maior concentração de onças-pintadas do mundo. A combinação de rios estreitos, margens com vegetação densa e abundância de presas, como capivaras e jacarés, explica a frequência dos avistamentos.
Por que a seca é a melhor época para ver onça-pintada?
Entre julho e outubro, durante a seca, o nível dos rios baixa e a água se concentra nos canais principais. As onças passam a circular e descansar nas margens, onde caçam e se refrescam, o que facilita a observação a partir dos barcos. Na cheia, ao contrário, os animais se dispersam por áreas alagadas e de difícil acesso.
Os passeios costumam durar o dia todo, com guias que se comunicam por rádio para indicar onde um felino foi avistado. Como observa Wilson Bachega Junior, a experiência exige paciência, já que tudo depende do comportamento do animal, e respeito às distâncias mínimas entre barco e margem.

Onça viva vale mais que gado perdido
A mudança mais profunda é econômica. Durante décadas, a onça-pintada foi vista como ameaça pelos pecuaristas por atacar bezerros e gado, e muitas acabavam abatidas. O turismo de observação inverteu a conta em parte da região, porque cada animal avistado com regularidade passou a atrair visitantes ano após ano.
Um estudo de pesquisadores da Panthera, da Universidade Federal de Mato Grosso e da Universidade de East Anglia, publicado na revista Global Ecology and Conservation, estimou que o turismo de onças em Porto Jofre pode gerar até 6,8 milhões de dólares por ano. As perdas de gado atribuídas aos felinos, no mesmo cálculo, somavam cerca de 121,5 mil dólares, menos de 2% da receita. Para fazendas e pousadas, manter a onça viva passou a fazer parte do negócio, e muitos felinos são identificados individualmente pelos guias a partir do padrão das manchas.
Incêndios colocam a tendência à prova
O crescimento do turismo esbarra em uma ameaça recorrente. Em 2020, o fogo atingiu cerca de 85% da área do Parque Estadual Encontro das Águas, segundo levantamentos divulgados na época, e voltou a castigar o Pantanal em anos seguintes, com destaque para 2024.
As queimadas destroem abrigos, reduzem a oferta de presas e ameaçam pousadas e as próprias pontes da Transpantaneira. Na visão de Wilson Bachega Junior, a prevenção do fogo e a recuperação das áreas atingidas se tornaram tão decisivas para o futuro do turismo quanto a presença das onças.
Planejamento para uma visita responsável
Quem pretende conhecer a região deve reservar com antecedência, já que a alta temporada concentra a procura e a hospedagem em Porto Jofre é limitada. Contratar guias e operadoras locais garante segurança na navegação e respeito às regras de observação, além de manter a renda do turismo na comunidade. Outubro marca o fim da temporada mais favorável, e as primeiras chuvas logo começam a alterar as condições da estrada e dos rios.
Roupas de cores neutras, protetor solar, repelente e binóculo compõem a bagagem básica, e lentes de longo alcance ajudam quem deseja fotografar. De acordo com Wilson Bachega Junior, acompanhar o calendário da seca e escolher operadores comprometidos com a conservação separa uma viagem de sorte de uma experiência bem planejada.
