Tal como contextualiza a profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, Taiza Tosatt Eleoterio, comparar a mulher com a ex-companheira do parceiro é uma forma de controle que costuma passar despercebida em um relacionamento abusivo. O que parece curiosidade ou desabafo vira régua: ela se vê medida por alguém que nem conhece e passa a se esforçar para não repetir o que ele critica. Conhecer esse padrão ajuda a perceber que o valor de uma pessoa não se mede em comparações e a proteger a autoestima.
Quando a comparação com a ex deixa de ser conversa e vira controle
Falar da ex-companheira em algum momento é comum em qualquer relação. O que muda de figura é quando essas referências passam a ser usadas de forma recorrente para medir a mulher: o que ela veste, como cozinha, como se comporta, quanto tempo leva para responder. Nesse ponto, a comparação deixa de ser uma lembrança e passa a funcionar como cobrança, um traço que costuma aparecer em relacionamentos tóxicos e abusivos.
Esse recurso, detalha Taiza Tosatt Eleoterio, costuma vir misturado com elogios à ex, lembrada como alguém perfeita, ou com críticas a ela, apresentada como alguém difícil. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a mulher sente que precisa provar algo o tempo todo.
Frases comuns que parecem inofensivas
Algumas frases soam inocentes, mas carregam a régua: “a minha ex nunca reclamava disso”, “ela era mais tranquila”, “você deveria ser mais como ela” ou “com ela eu não precisava explicar”. Também há versões indiretas, como elogiar a ex diante de amigos ou mencionar o quanto ela era compreensiva.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que a repetição é o que torna esses comentários prejudiciais. Ditos uma vez, podem passar. Ditos com frequência, ensinam a mulher a vigiar a si mesma, a antecipar o que será criticado e a se calar para evitar uma nova comparação.
Efeitos sobre a autoestima e a segurança em si
Ser comparada de forma constante abala a autoestima. A mulher começa a duvidar do próprio valor, a se perguntar se é suficiente e a buscar aprovação em pequenas coisas. O desejo de agradar cresce, e a segurança em si diminui.
Além disso, a comparação cria uma competição invisível com alguém que ela sequer conhece. Como a outra pessoa não está presente para se defender ou ser questionada, a imagem construída pelo parceiro fica sem contraponto e se torna uma referência difícil de enfrentar, o que pode alimentar a dependência emocional e a sensação de nunca estar à altura.
Por que a mulher passa a se esforçar para não ser comparada?
Diante de comentários repetidos, é comum que a mulher tente se adaptar: mude a forma de se vestir, de falar, de se relacionar com amigos e familiares, tudo para evitar uma nova comparação. Esse esforço não nasce de fraqueza, e sim da tentativa de manter a convivência em paz e de proteger o vínculo.
Taiza Tosatt Eleoterio evidencia que esse movimento costuma ser gradual e, por isso, passa despercebido. Quando percebe, a mulher já ajustou muitos aspectos da rotina às expectativas do parceiro e se sente distante de quem era antes, algo que pode fazer parte de um quadro mais amplo de relacionamento abusivo.
Como reconhecer o padrão e buscar apoio?
Algumas perguntas ajudam a identificar esse movimento: as comparações aparecem com frequência ou apenas em momentos isolados? Depois delas, a mulher se sente ouvida ou diminuída? Ela passa a mudar o próprio jeito para evitá-las? Quando as respostas indicam a segunda opção, vale conversar com alguém de confiança.
Buscar apoio não exige certeza absoluta nem decisões imediatas. Amigas, familiares, grupos de convivência e serviços de acolhimento social podem ajudar a organizar o que foi vivido. Em situações de risco ou de violência doméstica, a rede de proteção da região deve ser acionada, e o acompanhamento profissional contribui para fortalecer a autoestima.
O valor de uma pessoa não cabe em comparações
Posto isso, é possível entender que comparar a mulher com a ex do parceiro, de forma repetida, deixa de ser um comentário solto e se torna uma forma de controle, com efeitos sobre a autoestima e a segurança em si. Reconhecer esse padrão ajuda a separar o que é conversa do que é cobrança e a lembrar que ninguém precisa competir para merecer respeito.
Cada mulher tem a sua história e o seu valor, e que a rede de apoio e o acolhimento da comunidade ajudam a recuperar a confiança, no tempo que for possível. Sair da régua do outro é um processo, e começa por reconhecer que ninguém é obrigada a ser parecida com outra pessoa para ser acolhida.
