Volume negociado e número de operações com cotas de fundos de direitos creditórios avançam de forma consistente, em movimento impulsionado pela entrada do investidor de varejo e pela maior transparência da indústria
O amadurecimento da indústria de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no Brasil já não se mede apenas pelo volume de novas emissões. Um dos indicadores mais relevantes desse processo é o crescimento da liquidez no mercado secundário, ambiente em que cotistas negociam entre si suas posições sem depender da liquidação do fundo. Em 2024, esse mercado movimentou cerca de R$19 bilhões, avanço de aproximadamente 2% em relação ao ano anterior, enquanto o número de operações realizadas saltou 40% no mesmo intervalo, ultrapassando 415 mil negócios. Desde 2020, o volume de operações no mercado secundário de cotas de FIDCs cresceu perto de 2.000%.
Esse movimento reflete diretamente a consolidação regulatória promovida pela Resolução CVM 175, que unificou o arcabouço normativo aplicável à indústria de fundos e abriu caminho para que investidores de varejo pudessem acessar cotas seniores de FIDCs, historicamente restritas a investidores qualificados e profissionais. Com uma base de cotistas mais ampla e diversificada, a demanda por mecanismos de saída antes do vencimento do fundo cresceu proporcionalmente, o que impulsionou a busca por liquidez no mercado secundário.
Escrituração e transparência sustentam a negociação entre cotistas
Diferentemente de ações negociadas em bolsa, cotas de FIDCs não contam historicamente com um ambiente centralizado e altamente líquido de negociação. A maior parte das operações no mercado secundário desses fundos ocorre por meio de negociação direta entre investidores, intermediada por corretoras e registrada junto ao administrador fiduciário responsável pela escrituração das cotas. Nesse contexto, a qualidade e a agilidade do processo de escrituração tornam-se determinantes para viabilizar transações rápidas e seguras.
Para Paulo Viesti, diretor da ID CTVM, a expansão da liquidez no mercado secundário está diretamente relacionada à confiança que investidores depositam na governança dos fundos:
“Um cotista só se sente confortável para negociar sua posição no mercado secundário quando confia que a informação sobre a carteira do fundo é atualizada e confiável. A escrituração eletrônica das cotas, combinada com relatórios de desempenho transparentes e atualizados, dá ao comprador segurança para precificar corretamente o ativo que está adquirindo. Sem isso, a liquidez simplesmente não se desenvolve”.
A ID CTVM atua na escrituração de cotas de fundos estruturados sob sua administração, processo que envolve o registro da titularidade de cada cotista, o processamento de eventos de amortização e distribuição de rendimentos e a disponibilização de informações atualizadas sobre a carteira do fundo, elementos que sustentam a formação de preço em negociações secundárias.
Diversificação de gestores amplia a demanda por ativos de crédito privado
O crescimento da liquidez também atraiu o interesse de gestoras especializadas em crédito privado que buscam diversificar suas carteiras por meio da aquisição de cotas de FIDCs já em operação, em vez de depender exclusivamente da subscrição em novas ofertas primárias. Essa dinâmica amplia o universo de investidores dispostos a assumir posições em diferentes momentos do ciclo de vida de um fundo, o que tende a reduzir a dependência de um único perfil de investidor para sustentar a demanda por esses ativos.
O cenário de juros ainda elevados no Brasil também contribui para esse movimento, ao tornar os FIDCs uma alternativa atrativa de rentabilidade real dentro do universo de crédito privado, especialmente para gestores que buscam ativos com fluxo de caixa previsível e lastro direto na economia real.
Concentração setorial ainda é um desafio a ser superado
Apesar do crescimento expressivo no número de operações, parte relevante do volume negociado no mercado secundário de FIDCs ainda se concentra em poucos fundos de grande porte, especialmente aqueles vinculados a segmentos como crédito agrícola. A pulverização dessa liquidez para um número maior de fundos, de diferentes setores e tamanhos, depende do amadurecimento contínuo da base de investidores e da padronização de processos de escrituração e divulgação de informações entre diferentes administradores fiduciários.
Para que o mercado secundário de FIDCs continue se aprofundando, especialistas do setor apontam a necessidade de maior padronização na forma como diferentes administradores divulgam relatórios de desempenho e atualizam informações sobre a carteira dos fundos, de modo a facilitar a comparação entre ativos por parte de investidores e gestoras.
Perspectivas para os próximos ciclos
Com a base de investidores de varejo em FIDCs em expansão e o interesse de gestoras especializadas em crédito privado crescendo, a tendência é que o mercado secundário desses fundos continue ganhando profundidade nos próximos anos. Nesse cenário, administradores fiduciários com infraestrutura tecnológica capaz de sustentar processos ágeis de escrituração e divulgação de informações devem se consolidar como parceiros estratégicos para gestoras que buscam oferecer liquidez a seus cotistas sem comprometer a governança das operações.
A expectativa é que a combinação entre uma base de investidores mais diversificada, maior transparência na divulgação de relatórios de desempenho e infraestrutura tecnológica mais robusta para escrituração de cotas continue reduzindo as barreiras que historicamente limitaram a negociação secundária de ativos de crédito privado no Brasil, aproximando gradualmente essa dinâmica da liquidez observada em mercados mais maduros de renda fixa estruturada.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.
