Prefeito enfrenta impasse com o Ministério Público após tentar reproduzir o modelo de shows internacionais adotado pelo Rio de Janeiro
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, afirmou que a capital paulista não deve receber um megashow gratuito na Avenida Paulista neste ano, contrariando expectativas que vinham sendo alimentadas desde que a gestão municipal demonstrou interesse em reproduzir o sucesso obtido pelo Rio de Janeiro com grandes apresentações internacionais na orla de Copacabana. A declaração levanta uma questão relevante para quem acompanha a agenda cultural da cidade: por que um projeto que parecia promissor para atrair turistas e movimentar a economia local esbarrou em obstáculos jurídicos justamente na reta final?
O modelo carioca que inspirou a gestão paulistana
A inspiração para o projeto veio diretamente do evento “Todo Mundo no Rio”, criado pela gestão do prefeito Eduardo Paes na capital fluminense, que recebeu megashows gratuitos na praia de Copacabana com atrações como Madonna, Lady Gaga e Shakira ao longo de três edições consecutivas. Esses shows atraíram grande volume de turistas e geraram repercussão internacional significativa para o Rio de Janeiro, movimentando a economia da cidade em setores como hotelaria, gastronomia e comércio local durante os dias de realização dos eventos. Diante desse resultado, a prefeitura de São Paulo passou a estudar a possibilidade de adotar uma estratégia semelhante, usando a Avenida Paulista como palco para atrações de peso internacional capazes de gerar um impacto econômico e turístico comparável ao observado na capital fluminense.
O impasse jurídico que travou o projeto
O principal obstáculo enfrentado pela prefeitura envolve um Termo de Ajustamento de Conduta assinado com o Ministério Público em fevereiro deste ano. Esse tipo de acordo estabelece compromissos formais entre uma instituição pública e o órgão fiscalizador, geralmente para regularizar ou disciplinar determinada prática administrativa. No caso específico da realização de megaeventos na Avenida Paulista, o acordo previa condições específicas para a organização desse tipo de show, incluindo cláusulas relacionadas ao uso de recursos públicos na realização das apresentações.
Em junho, no entanto, a prefeitura entrou com um pedido de embargos de declaração junto ao Conselho Superior do Ministério Público, contestando algumas das cláusulas que haviam sido definidas no acordo original. Entre os pontos questionados está justamente a exigência de que os eventos sejam realizados sem qualquer uso de dinheiro municipal, uma condição que, segundo fontes da própria gestão, tornaria inviável a contratação de atrações internacionais do porte das que se apresentaram no Rio de Janeiro. Embargos de declaração, vale explicar, são pedidos de esclarecimento apresentados quando uma das partes identifica pontos que não ficaram claros ou possíveis contradições em uma decisão previamente firmada, solicitando que o órgão responsável revise o documento antes de sua aplicação definitiva.
Por que financiamento público se tornou o ponto central da disputa
A exigência de que os megashows ocorram sem recursos municipais reflete uma preocupação recorrente do Ministério Público em relação ao uso do dinheiro público para financiar eventos de entretenimento, especialmente em um contexto de restrições orçamentárias enfrentadas por diversas áreas da administração municipal. Do ponto de vista da prefeitura, contudo, a viabilização de shows internacionais de grande porte dificilmente ocorre sem algum tipo de aporte público, seja para infraestrutura de segurança, montagem de palco e estrutura urbana, seja para viabilizar cachês compatíveis com artistas de repercussão mundial.
Esse embate ilustra uma tensão mais ampla que cidades ao redor do mundo enfrentam ao tentar atrair grandes eventos culturais como estratégia de desenvolvimento econômico e turístico. Se por um lado esses megashows podem gerar retorno significativo em termos de movimentação econômica, ocupação hoteleira e projeção internacional da cidade, por outro lado a origem dos recursos utilizados para viabilizá-los frequentemente se torna alvo de questionamentos sobre prioridades de gastos públicos, sobretudo quando comparada a outras demandas da população, como saúde, educação e mobilidade urbana.
O que esperar dos próximos passos da negociação
Enquanto o impasse com o Ministério Público não é resolvido, a expectativa de um megashow gratuito na Avenida Paulista em 2026 parece ter perdido força, ao menos na avaliação do próprio prefeito. Isso não significa, necessariamente, que o projeto esteja definitivamente descartado para os próximos anos, já que o Conselho Superior do Ministério Público ainda precisa se manifestar formalmente sobre os embargos de declaração apresentados pela prefeitura, o que pode reabrir a discussão sobre os termos do acordo firmado anteriormente.
Para os moradores e comerciantes da região da Avenida Paulista, que aguardavam a possível realização de um evento capaz de atrair grande fluxo de visitantes, a notícia representa um adiamento das expectativas geradas desde que o sucesso do modelo carioca começou a repercutir na imprensa nacional. Nos próximos meses, o desfecho dessa negociação entre a prefeitura e o Ministério Público deve determinar se São Paulo conseguirá, eventualmente, competir com o Rio de Janeiro na disputa por grandes apresentações internacionais gratuitas, ou se o modelo adotado pela capital fluminense continuará sendo, por ora, uma referência distante para a gestão municipal paulistana.
Fontes consultadas:
Diário do Grande ABC: https://www.dgabc.com.br/Noticia/4337326/ricardo-nunes-afirma-que-sp-nao-deve-ter-megashow-na-avenida-paulista-em-2026
