O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, encontra nos homens atendidos pelo projeto um retrato claro de um fenômeno que a medicina e a sociedade ainda aprendem a abordar com profundidade: a resistência masculina ao cuidado. A saúde do homem idoso carrega especificidades que, quando ignoradas, cobram seu preço de formas que afetam profundamente a qualidade de vida e a expectativa de vida. Compreender esses padrões é o primeiro passo para superá-los.
Por que os homens chegam mais tarde ao médico?
Desde cedo, os meninos são ensinados a associar resistência física e emocional com masculinidade, e a busca por ajuda médica é frequentemente interpretada como admissão de fraqueza. Esses valores, internalizados ao longo de décadas, moldam o comportamento dos homens em relação à própria saúde de formas que se tornam especialmente perigosas na terceira idade. Em razão disso, hipertensão não diagnosticada, diabetes descontrolado, problemas prostáticos ignorados e sinais de comprometimento cognitivo não investigados são achados comuns no perfil de paciente atendido pelo Humaniza Sertão.
Conforme aponta o doutor Yuri Silva Portela, em todos esses casos o diagnóstico tardio reduz significativamente as chances de tratamento eficaz e de manutenção da qualidade de vida. Superar essa barreira cultural exige uma abordagem que compreenda os valores masculinos, que fale a linguagem do autocuidado como responsabilidade e não como vulnerabilidade, e que crie ambientes em que o homem se sinta respeitado e acolhido sem julgamentos. Essa é uma das dimensões centrais do trabalho humanizado que o projeto desenvolve em suas ações comunitárias.
Quais são as condições de saúde mais prevalentes no homem idoso?
Doenças cardiovasculares ocupam o topo da lista de riscos para o homem acima dos 60 anos, sendo a principal causa de morte nessa faixa etária. Hipertensão, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca e doenças cerebrovasculares são condições que aumentam progressivamente com a idade e exigem monitoramento regular e gestão cuidadosa dos fatores de risco. O câncer de próstata, o mais comum entre os homens brasileiros, tem altas chances de cura quando detectado precocemente, o que só é possível com rastreamento regular a partir de determinada idade.

Sob a perspectiva do doutor Yuri Silva Portela, a saúde mental do homem idoso merece atenção especial precisamente por ser a área em que as barreiras culturais são mais fortes. A depressão masculina na terceira idade é frequentemente mascarada por irritabilidade, alcoolismo e isolamento, formas atípicas de apresentação que dificultam o diagnóstico. Reconhecer esses sinais e criar espaços seguros para que o homem idoso fale sobre como se sente é uma responsabilidade compartilhada entre profissionais de saúde e famílias.
Como o ambiente do sertão influencia a saúde do homem idoso?
O contexto geográfico e cultural do sertão nordestino cria condições específicas que afetam a saúde do homem idoso de formas particulares. Décadas de trabalho rural sob calor intenso, exposição solar prolongada, esforço físico excessivo e alimentação frequentemente inadequada deixam marcas no organismo que se manifestam na terceira idade na forma de doenças crônicas, lesões musculoesqueléticas e condições dermatológicas que raramente receberam atenção médica ao longo da vida. O valor culturalmente atribuído à resistência física e à independência torna particularmente difícil para muitos homens reconhecer e aceitar as limitações que chegam com o envelhecimento.
Conforme destaca Yuri Silva Portela, abordar o cuidado com o homem sertanejo idoso exige respeito pela sua história, reconhecimento de seus valores e uma linguagem que se conecte com sua realidade. Quando essa conexão acontece, homens antes resistentes ao cuidado médico tornam-se pacientes engajados que percebem, muitas vezes pela primeira vez, que cuidar de si mesmos é um ato de responsabilidade e não de fraqueza.
O barbeiro como porta de entrada para o cuidado masculino
Uma das presenças mais estratégicas na equipe do Humaniza Sertão é a dos barbeiros voluntários. No contexto da saúde masculina, o barbeiro ocupa um lugar de confiança e abertura emocional que poucos outros profissionais conseguem alcançar. Ao incluir esses profissionais nas ações do projeto, o Humaniza Sertão cria um ponto de conexão que reduz a resistência de muitos homens ao cuidado, abrindo espaço para conversas sobre saúde que dificilmente aconteceriam em um consultório convencional.
Na avaliação do doutor Yuri Silva Portela, cuidar da dignidade e da autoestima do homem idoso é parte do cuidado integral, e não um acessório dele. Um homem que sai de uma ação do projeto com a aparência cuidada experimenta uma restauração de sua autoimagem com impacto real sobre seu bem-estar emocional e sua disposição para continuar se cuidando. A saúde do homem idoso é uma questão que afeta famílias e comunidades inteiras, e investir nesse cuidado é um investimento com retorno coletivo que vai muito além do indivíduo. Incentive o homem idoso na sua vida a buscar acompanhamento médico regular: essa conversa pode fazer toda a diferença.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
