Em 2018, a onda que pregava contra a política atual e o petismo elegeu o presidente Jair Bolsonaro e deu ao Partido Social Liberal (PSL) a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. A quantidade de parlamentares eleitos deu à sigla a segunda maior parcela do fundo eleitoral, com pouco mais de R$ 199 milhões em recursos disponíveis a serem injetados nas candidaturas municipais, e criou a expectativa de uma expansão ainda maior de uma legenda que se coloca como “direita raiz” e defende pautas como a Operação Lava Jato e o fim do fisiologismo político, por exemplo. Dois anos depois, passado o primeiro turno das eleições municipais, embora tenha crescido o número de vereadores eleitos em relação ao pleito de 2016, o PSL não elegeu nenhum prefeito até o momento e está no segundo turno apenas em duas cidades: Sorocaba e Praia Grande.

Mais do que isso, obteve desempenhos irrisórios em duas das principais cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro. Para o vice-presidente nacional da sigla e presidente do PSL em São Paulo, deputado federal Junior Bozzella, estar no segundo turno em duas das 100 cidades mais populosas do país já é uma vitória. “Se você fizer um comparativo com 2016 [quando o partido não foi ao segundo turno em nenhuma cidade], com 2018, considerar a cisão com o bolsonarismo, o partido se agiganta nesse momento. Ele não está no guarda-chuva de ninguém, não está a reboque de ninguém. Contra tudo e contra todos, contra a máquina do Palácio do Planalto, o PSL cria sua identidade, defende suas bandeiras e alcança essa marca no momento em que os cavalos de Troia tentam difamar, destruir e fazem campanha contra”, disse à Jovem Pan.

A cisão com o bolsonarismo citada por Bozzella remonta a outubro do ano passado, quando Bolsonaro pediu a um apoiador, na porta do Palácio da Alvorada, que esquecesse o PSL porque o presidente nacional do partido, Luciano Bivar, estava “queimado para caramba”. A declaração foi o estopim para uma crise interna que resultou na criação de duas alas distintas dentro da legenda, a de bolsonaristas e bivaristas, troca de acusações entre parlamentares e a saída de Bolsonaro do partido pelo qual foi eleito em 2018. A tropa de choque do Palácio do Planalto no Congresso passou, então, a se empenhar na criação do Aliança Pelo Brasil, mas a iniciativa, até o momento, sequer saiu do papel. O “fogo amigo” ao qual Bozzella se refere pode ser explicado pelo fato de os aliados do governo federal terem apoiado candidatos de outros partidos nas eleições para prefeito em detrimento dos colegas de bancada, casos como São Paulo, onde Joice Hasselmann (PSL) foi preterida por Celso Russomanno (Republicanos), e Rio de Janeiro, cidade na qual Luiz Lima (PSL) foi ofuscado por Marcelo Crivella (Republicanos).

Rompida com o Palácio do Planalto desde que deixou a liderança do governo no Congresso, Joice Hasselmann se apresentou como candidata da “direita raiz” e mirou parte de sua artilharia na candidatura do prefeito Bruno Covas (PSDB). No último debate do primeiro turno, transmitido pela TV Cultura, a candidata do PSL se dirigiu ao tucano e recitou um de seus jingles de campanha: “Para de aumentar o IPTU. Ei, prefeito, vai tomar vergonha”. Apesar do esforço, Hasselmann terminou na sétima colocação, com 1,84% dos votos válidos, atrás, inclusive, de Arthur do Val (Patriota), com 9,78%, e Celso Russomanno, com 10,5%, com quem a deputada federal disputou a preferência do eleitor de direita. Em 2018, quando foi eleita deputada federal, Joice obteve 1.064.047 votos, sendo 289.404 somente na capital – neste ano, foram 98.342 votos. “Pior do que ter tido menos votos seria não ter tido voto nenhum. A Joice cumpriu uma missão, foi para o enfrentamento e para o embate. A maioria das pessoas não teria ido até o final. O PSL marcou posição. Quem não entra em campo não faz torcida, o partido precisava ter sua candidatura na maior cidade do país. Agora, ela passa a ter seu próprio capital político, diferentemente do cenário de 2018, quando muitos parlamentares foram eleitos na onda antipetista e contra o establishment”, avalia Junior Bozzella.

Em relação ao posicionamento do PSL no segundo turno da eleição paulista, que será disputada entre Guilherme Boulos e Bruno Covas no dia 29 de novembro, Bozzella afirmou que não há definição no momento. O presidente estadual do partido pretende conversar com Joice ainda nesta segunda-feira para traçar uma estratégia. Ele não negou uma aliança com o candidato do PSOL, mas afirmou que “é mais complexo por uma questão ideológica e fica distante daquilo que o partido prega. Talvez fica mais fácil se inclinar, se é que haverá esse movimento, pode ser que fique neutro, para o lado do Covas”. Questionado se não seria incoerente o partido declarar apoio ao atual prefeito após tantas críticas de Hasselmann ao tucano, Bozzella afirmou que há uma distinção entre o posicionamento pessoal da candidata e do partido. “O PSL, como um todo, como Executiva, com vereador eleito, terá um posicionamento. Você tem que escolher ou ficar neutro. Nossa opção seria a vitória da Joice, mas, entre a esquerda e o Covas, temos que ir pelo pragmatismo, analisar quem será melhor pelos próximos quatro anos. Um dos dois vai ganhar. Eu sou contra a omissão, se pudermos tomar um posicionamento, seria mais plausível nesse momento”, disse à Jovem Pan.