O desabafo de quem vive num dos setores mais afetados pela pandemia da Covid-19. “Estão tratando a gente como boi de piranha, né? Tem aquele boi que você mata para o restante da boiada passar. Você mata o boi, joga ele no rio e deixa ele de lado. É o que eu estou sentindo, é a sensação. Nós somos os bois de piranha.” O sentimento do dono de dois restaurantes na Zona Leste de São Paulo é o mesmo da maioria dos proprietários e trabalhadores que se reuniram em frente ao Masp, na Avenida Paulista, para protestar contra as restrições impostas ao ramo gastronômico.

Com faixas e cartazes, eles pedem o aumento do horário de funcionamento, incentivos fiscais e moratória de impostos como o IPTU e recuo na alíquota do ICMS. Os agentes do setor reivindicam ainda carência para o pagamento de dívidas e acesso a linhas de crédito que não tem chegado a ponta. Desde o início da pandemia, em março de 2020, a Associação Nacional de Restaurantes já calcula que 10 mil estabelecimentos fecharam as portas somente na capital paulista. Em todo o Brasil, já houve a perda de 84 mil postos de trabalho.  presidente da ANR, Cristiano Melles, diz que os empresários não poderão suportar este cenário por mais tempo.

“Com os estabelecimentos fechados, sem lucro em janeiro, é o pior mês do setor na história. O setor 0 não aguenta mais essa situação.” O empresário Rodrigo Alves decidiu, mesmo com a proibição, abrir sua casa como sinal de protesto. “Eu abri no final de semana por um protesto depois que vi o prefeito no jogo no Maracanã.” A situação, que já está complicada, segundo presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Paulo Solmucci, é agravada com as incertezas. “O que é pior é que aqui não conseguimos saber como vamos funcionar. Uma hora fecha, outra hora é sábado e domingo. Essa incerteza nos impede de trabalhar ainda que pouco.”

As casas de shows sofrem em dobro: as contas não param de chegar. É o que diz Edgard Radesca, proprietário de uma delas há 27 anos no bairro de Moema, na zona sul da cidade. “Do lado música é ainda pior. Eu não posso fazer delivery. As pessoas vão lá para assistir uma música boa enquanto aproveitam a gastronomia. Esse é um composto.” O governo de São Paulo poderá recuar e suspender endurecimento da quarentena aos finais de semana e no período noturno. Nas últimas 24 horas, o Estado de São Paulo registrou 365 mortes, maior número no ano, totalizando 53.455 óbitos e 1.794.019 casos confirmados.

*Com informações do repórter Daniel Lian