Com a alta de casos de Covid-19, internações e mortes causadas por complicações da doença, na última semana, a saúde entrou em colapso no Estado do Amazonas. Nem mesmo operando no limite de sua capacidade, a White Martins, principal empresa que fornece oxigênio hospitalar na região, conseguiu suprir a demanda crescente pelo insumo – na multinacional, é possível produzir 28 mil m³ por dia, mas a alta de internações no estado demanda 76 mil m³ do gás por dia. Desde então, autoridades se mobilizam para enviar cilindros de oxigênio, familiares correm contra o tempo para salvar seus entes queridos e médicos ventilam alguns dos pacientes diagnosticados com Covid-19 que, sem o insumo, estão morrendo asfixiados diariamente. Em entrevista à Jovem Pan, familiares contaram as histórias por trás de vítimas da falta de oxigênio no Amazonas.

“Tenho que dar voz a quem se foi e não pôde respirar”

Iyad e os irmãos perderam seus pais, Amado Hajoj e Zahieh Hajoj no mesmo dia, no intervalo de uma hora, no Hospital Getúlio Vargas em Manaus. O casal de imigrantes, que estava internado com Covid-19 não resistiu devido à falta de oxigênio. “A dor se intensifica porque eles foram vítimas da incompetência e da falta de gestão das autoridades. E, mesmo com tantas tragédias, o caos continua. Como sociedade, precisamos fazer uma mea culpa porque nós colocamos estes políticos, que não respeitam os cidadãos e o dinheiro público, no poder. Hoje, se tenho forças para falar, é porque preciso fazer justiça pelas vozes deles, que se calaram para o descaso. Tenho que dar voz a quem se foi e não pôde respirar. Preciso lutar para que as pessoas possam, ao menos, respirar enquanto há vida”, disse Iyad. À Jovem Pan, o filho relatou os últimos momentos de vida do casal.

“Meu pai sentiu os primeiros sintomas de Covid-19 em 24 de dezembro e, cuidando dele, todos nos infectamos. Chamamos dois infectologistas diferentes, alugamos um cilindro de oxigênio e seguimos o tratamento indicado pelos médicos. Na madrugada do dia 30, sua febre estava incontrolável e eu saí pelas ruas de Manaus às 4h, batendo de porta em porta dos hospitais em busca de leito, mas todos estavam lotados. No último dia do ano, conseguimos interná-lo no Hospital Universitário Getúlio Vargas. Após três dias na UTI, ele foi entubado. Logo em seguida, minha mãe ficou mal e também foi internada com urgência na unidade, recebendo oxigênio. De lá para cá, lutávamos para mantê-los vivos. A última vez em que falei com minha mãe foi no dia 13, após uma melhora significativa em seu quadro de saúde. Parei sua maca no corredor enquanto era transferida da UTI para a enfermaria e pedi que tivesse força e continuasse lutando porque em breve deixaria o hospital.

Na manhã seguinte, os médicos ligaram e pediram que eu levasse o cilindro da minha casa para o hospital porque, segundo eles, começava a faltar oxigênio. Poucos minutos depois, enquanto corríamos para transportá-lo, telefonaram dizendo que não havia mais necessidade de levar o cilindro. Quando cheguei no hospital, recebi a notícia do falecimento dos dois pela falta de oxigênio. Entubado, meu pai morreu imediatamente. Minha mãe ainda aguentou certo tempo. Eles morreram com diferença de menos de uma hora. Por eu estar com coronavírus, precisei reconhecer os corpos infectados. Ali, senti a pior dor da minha vida. Perder o pai e a mãe por falta de oxigênio, no intervalo de uma hora, é insuportável. Reconheci os corpos que estavam lado a lado, ajudei a funerária a colocar meus pais nos caixões e lacrá-los para evitar contágio. Coloquei-os no carro fúnebre e enterrei os dois, simultaneamente. Em covas vizinhas, os caixões desceram ao mesmo tempo”, disse o empresário.




“A falta de oxigênio foi determinante para a morte da minha mãe”

Na sexta-feira, 15, Francisca Elisabete Rocha morreu, aos 45 anos, após acabar o estoque de oxigênio disponível no hospital pronto-socorro São Raimundo. Durante a madrugada, outras oito pessoas morreram na unidade devido à falta do material. Sepultada em um velório restrito pela pandemia ainda na sexta, Betty – como gostava de ser chamada, “foi ao encontro de Daiane”, sua filha falecida, deixando outros quatro filhos e os netos João, Guilherme e Vitória, “o Jojô, o Pantera e a Oncinha da vovó”. À reportagem, Rebeca Santana, filha da vítima, contou suas últimas memórias com a mãe. “No início de janeiro, a mãe foi até uma UBS com febre, dor no corpo e cansaço. Lá, os médicos deram o ‘kit Covid‘, com cloroquina, ivermectina e tudo mais. Aparentemente ela estava se recuperando, mas no dia 11, sete dias após o começo do tratamento, minha mãe passou mal, foi ao hospital e descobriu um comprometimento do pulmão. Naquele momento, não havia leitos disponíveis. No dia 12, conseguimos leito e ela foi internada, indo direto para o oxigênio. Na mesma madrugada em que começou o colapso em Manaus, às 3h35, minha mãe teve a primeira parada cardíaca e foi quando a equipe do SPA do São Raimundo nos avisou que não tinha mais oxigênio no hospital. Os médicos correram, fizeram massagem cardíaca e ventilação manual até que sua saúde se estabilizasse.

Da parte de fora do hospital, meu padrasto viu os carregamentos com cilindros de oxigênio chegarem por volta das 4h. Ele perguntou aos médicos quanto tempo aquela quantidade do gás duraria e disseram que seria suficiente para, no máximo, 40 minutos. Este foi o tempo que minha mãe ficou viva. Quando colocada no oxigênio, ela voltou, ligou para o meu padrasto e falou que estava bem, que nós não deveríamos nos preocupar. Até que o oxigênio se esgotou. Exatamente às 5h02, recebi a ligação do meu padrasto informando que ela faleceu depois da segunda parada cardíaca. A falta do oxigênio foi determinante para a morte da minha mãe. Caso contrário, agora ela estaria aqui comigo”, concluiu emocionada.

“Como ela se sentiu morrendo sozinha, sem ar?”

No último dia 19, a imagem de sete caixões alocados em uma caminhão, sendo transportados em cortejo para o cemitério de Coari, no interior do Amazonas, circulou nas redes sociais e chamou a atenção de todo o país. Entre as vítimas da falta de oxigênio no estado estava Marizete Ribeiro de Souza, a tia e “mãe do coração” de Glendha Leicam. A sobrinha disse à Jovem Pan que, olhando para a imagem, apenas consegue enxergar uma das mulheres mais importantes de sua vida dentro do caixão, morta aos 51 anos. “Minha tia me criou, eu dizia que ela era minha mãezinha. Ela morava em Coari e já tinha testado positivo para a Covid-19 no ano passado. Depois de passar férias com nossa família em Manaus, retornou para Coari passando mal e infectada pelo coronavírus de novo. Desta vez, a doença veio mais forte, atacou tudo, principalmente o pulmão. Com falta de ar, ela foi internada no Hospital Regional com pneumonia. Em 16 de janeiro, recebemos a notícia de que sua oxigenação estava variando e que, por isso, seria entubada. Na manhã seguinte, informaram que a situação da minha tia era estável, que seu pulmão estava quase limpo, mas que seria necessário transferi-la, no dia 18, para um hospital com mais recursos em Belém. Segundo o boletim médico do dia 18, ela evoluiu clinicamente e a transferência foi adiada. Minha mãezinha morreu naquela madrugada. Foi uma entre os sete pacientes que deixaram o hospital em caixões em Coari.

Nos avisaram de seu falecimento apenas na manhã do dia 19. A equipe do hospital nos disse que havia apenas dois cilindros disponíveis para sete pessoas, que acabou o oxigênio e ponto. Agora, o que nos resta são as perguntas sem respostas. Como ela se sentiu morrendo sozinha, sem ar? Por que não nos avisaram sobre a falta do oxigênio antes de sua partida? Já que podia-se prever que o material estava acabando, por que essas sete pessoas precisaram morrer? Essas questões nunca serão respondidas. Minha mãe do coração e outras seis pessoas precisaram morrer para que o oxigênio chegasse ao hospital. É revoltante, desumano. Meu amor foi morta pelo governo federal, pela péssima administração do estado e incompetência do município”, finalizou Glendha.