Adiamento do calendário, judicialização, lotação de salas, alunos impedidos de realizar provas, mudanças no gabarito e falhas no sistema. Estes são alguns dos acontecimentos que marcam a edição 2020 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em meio às expectativas para a segunda etapa da versão digital da prova, que acontece neste domingo, 7, estudantes reclamam de desigualdades entre os diferentes modelos de aplicação. Nas redes sociais, alunos avaliam as provas e acusam o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação responsável pela elaboração e correção do exame, de favorecer participantes do Enem digital com questões “mais fáceis e diretas”. Para estudantes como André Luís Pinheiro da Fonseca, a disparidade é evidente, especialmente no tamanho das questões. “Na prova impressa cada página era um texto enorme e isso acabou com o psicológico de quem estava fazendo. Não me sinto prejudicado ou injustiçado, me sinto chateado porque esse Enem foi muito desgastante. Já o Enem digital foi mais fácil porque não tinha aquele monte de texto que servia para confundir”, avalia o estudante, que acredita que a versão mais fácil foi intencional. “O Inep quer aprovação do público mostrando que a prova é boa. Ela [prova digital] vai ter uma aprovação bem maior.”

De certa forma, o estudante esperava um vestibular diferente em 2020, considerando o contexto da pandemia e os desafios da educação. “Ao meu ver, essa prova foi bem mais difícil por conta dos textos. Assim como eu, outras pessoas estudaram sozinhas em casa só vendo videoaulas porque a família não tinha dinheiro para cursos online. O Inep deveria ser mais empático nessa parte. Essa prova do Enem impressa não foi feita para pessoas que passaram um ano em casa estudando sozinhas”, diz o aluno, que terminou o terceiro ano do ensino médio em 2020 e quer cursar ciências biológicas na Universidade Federal do Ceará. Além da prova de português, outro ponto de reclamação foi a prova de história. Assim como André, a estudante Giulia Guzzardi também acredita que as questões do vestibular digital foram mais fáceis, tanto pelo tamanho reduzido dos textos quanto pelos conteúdos abordados. “Nas questões do Enem digital eles foram mais específicos nos assuntos. Em história, por exemplo, senti falta de história do Brasil no Enem impresso. Não caiu quase nada. Em todas as provas anteriores tinham questões de história do Brasil e na prova digital isso caiu 100% mais. Então eu me senti prejudicada, ainda mais na prova de história. Achei injusto. As questões poderiam não ser as mesmas, mas o tema poderia ser, no mínimo, parecido. Se não caiu nada de história do Brasil no Enem impresso, não deveria cair no Enem digital.”

Impresso x digital

De fato, a prova do Enem digital teve perguntas com perfil mais objetivo e abordou mais a história do Brasil, tema de maior facilidade entre os estudantes. O exame contou com perguntas sobre democracia representativa, Revolta da Vacina e Era Vargas, por exemplo, enquanto a versão impressa trouxe conteúdos como Grécia, expansão romana no Mediterrâneo, visibilidade dos seringueiros amazônicos, tráfico de coolies, antiguidade oriental e colonização da Nova Inglaterra. Embora reconheça a diferença nas abordagens, o professor de história e coordenador de vestibular, João Ernesto Rafael de Souza, avalia que as disparidades de conteúdo não devem prejudicar os participantes. Ele lembra que não basta a prova ser “mais fácil” se o aluno não estiver preparado para o novo modelo de aplicação. “O Enem digital foi mais objetivo até por ser uma prova pelo computador, tentaram equilibrar nesse sentido. O que me preocupa é a preparação do aluno e a capacidade do governo de fazer essa logística. O aluno tem que se prepara para o mundo digital, para uma prova digital mais objetiva, mais técnica, mas mantendo algumas características do próprio Enem. Não adianta o aluno achar a prova mais fácil e mais objetiva se ele não tem essa técnica.”

O professor pontua que, apesar das diferenças, o exame seguiu o estilo de prova interdisciplinar e contextualizada, embora a tendência seja uma prova mais conservadora e técnica e, ao mesmo tempo, menos polêmica. “Caiu mais questões de história do Brasil, mas acredito que foi mais a montagem da prova, foram estruturas diferentes. Em uma prova de computador, provavelmente as questões serão mais objetivas. O estilo de prova muda um pouco o método, mas não vejo uma injustiça. Não acho que isso foi de forma consciente. A prova no computador tende a ser diferente da escrita no sentindo do método que você está colocando, ali [impressa] você escreve, lê, folheia. Na outra, você mexe no computador, é outro trâmite. Os alunos têm que começar a acostumar e perceber esse ensino híbrido e que essa prova do Enem tende a ser digital.”

Ao contrário de João Ernesto, o estudante André Luís, assim como outros participantes que criticam as diferenças nas redes sociais, acredita que a facilidade da prova digital faz parte de uma estratégia do Inep para que, nas próximas edições, os alunos optem pela nova versão. Mesmo assim, o estudante nega que irá optar pela prova digital. “Como é um modo novo podem acontecer diversos erros. Sem contar que não me sinto bem fazendo uma prova mais fácil que todo mundo”, disse. Em ocasiões anteriores, o Inep afirmou que pretende tornar todo o vestibular digital até 2026. No entanto, a instituição não respondeu os questionamentos da Jovem Pan sobre a possível disparidade nas provas ou benefício de parte dos concorrentes até o fechamento desta reportagem. Na semana passada, a primeira prova do Enem digital teve 68% de abstenção e relatos de falhas no sistema de aplicação. O vestibular contou com a participação de apenas 34.590 dos 100 mil alunos esperados. Neste domingo, 104 cidades brasileiras recebem a segunda e última etapa do exame digital, com abertura dos portões a partir das 11h30.