Em 2018, a onda bolsonarista de renovação política elegeu o presidente Jair Bolsonaro e deu ao PSL a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, atrás apenas do PT. Dois anos depois e na véspera do primeiro turno das eleições municipais, as pesquisas de intenção de voto mostram que os candidatos apoiados pelo Palácio do Planalto não decolaram na maioria das capitais, apesar do esforço de Bolsonaro e seus aliados na reta final. Dois dos casos mais simbólicos estão nas corridas pelas prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro, onde, respectivamente, Celso Russomanno (Republicanos) aparece em queda livre nos levantamentos feitos por Datafolha e Ibope, e o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que tenta a reeleição, aparece tecnicamente empatado com Martha Rocha (PDT) na segunda colocação.

Em outubro do ano passado, Bolsonaro entrou em rota de colisão com a cúpula do PSL, partido pelo qual foi eleito à Presidência da República. Na saída do Palácio da Alvorada, disse a um apoiador que o presidente nacional da sigla, deputado Luciano Bivar (PSL-PE) estava “queimado para caramba”. “Esquece o PSL, tá ok? Esquece”, disse o presidente a um homem que se apresentou como pré-candidato. A declaração foi o estopim para um racha interno dentro de uma legenda que se dividiu entre bolsonaristas e bivaristas. Bolsonaro, então, deixou o PSL e iniciou uma corrida contra o tempo para criar seu próprio partido, o Aliança Pelo Brasil, que ainda não saiu do papel. O clima de animosidade entre PSL e aliados do presidente da República teve um efeito prático: os candidatos alinhados a Bolsonaro foram abrigados em legendas amigas, como o PRTB, do vice Hamilton Mourão, o Republicanos, sigla do vereador Carlos Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro, PTB, presidido por Roberto Jefferson, preso no escândalo do Mensalão, e, no caso do Estado do Ceará, o PROS, sigla de Capitão Wagner, que lidera as pesquisas de intenção de voto.

Em São Paulo, Russomanno faz questão de dizer que é amigo de Bolsonaro desde 1995 e que a amizade com o chefe do governo federal seria fundamental, por exemplo, para implementar uma de suas principais propostas, o auxílio paulistano, que seria subsidiado pelos recursos oriundos da renegociação da dívida da capital paulista com a União. Apesar do esforço para se associar a Jair Bolsonaro, o candidato do Republicanos segue em queda livre nas pesquisas. De acordo com o levantamento divulgado pelo Datafolha na quarta-feira, 11, o deputado federal tem 14% das intenções de voto – em 23 de setembro, esse índice era de 29%. Em contrapartida, o prefeito Bruno Covas (PSDB), apoiado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), desafeto político do presidente da República, subiu de 20% para 32%.

No Rio de Janeiro, Marcelo Crivella aparece tecnicamente empatado com Martha Rocha (PDT) na segunda colocação, mas é o mais rejeitado pelo eleitorado, com 62%. No dia 30 de outubro, o presidente recebeu o prefeito do Rio no Palácio da Alvorada e gravou um vídeo ao lado do bispo licenciado da Igreja Universal. “Se você não quer votar no Crivella, não vamos brigar por causa disso. Você pode encontrar virtude em outros candidatos, respeito, mas eu botei na balança, entre todos os candidatos ali, o que seria melhor para o Rio de Janeiro”, disse na publicação. Dois dias antes, Bolsonaro prometeu a um de seus mais fieis aliados no Congresso, o deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ), “entrar de cabeça” na campanha de Crivella. “Tentei passar um recado ao presidente, e ele concordou, que mesmo com as restrições que temos com o Crivella, pelo fato de a gestão não ter sido exatamente como queríamos, é o que mais se assemelha ao que o governo federal prega”, disse Otoni à Jovem Pan.

Em Belo Horizonte, onde o prefeito Alexandre Kalil (PSD) caminha para ser reeleito no primeiro turno, o candidato apoiado por Bolsonaro, o deputado estadual Bruno Engler (PRTB) tem 4% das intenções de voto. Em suas lives semanais nas redes sociais, o presidente da República já chegou a pedir votos para “o gordinho”, que também conta com a simpatia do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Em Recife, a manifestação de apoio do Palácio do Planalto à candidatura de Delegada Patrícia (Podemos) causou desconforto no Cidadania, uma das siglas aliadas. Em nota, o partido, presidido por Roberto Freire, afirmou que “a presença do senhor presidente da República, um obscurantista e negacionista, no palanque da referida candidata é incompatível com os valores e princípios defendidos pelo Cidadania”. Coincidência ou não, depois de Bolsonaro anunciar apoio a Patrícia, a candidata despencou nas pesquisas – no dia 22 de outubro, Delegada Patrícia estava tecnicamente empatada na segunda colocação com Marília Arraes (PT); no levantamento divulgado na quarta-feira, 11, ela aparece numericamente na última colocação.

O caso de Fortaleza, no entanto, se mostra mais animador, ao menos por ora. Em suas lives, Bolsonaro pediu votos para Capitão Wagner (PROS) e afirmou que, se eleito, o capitão da Polícia Militar terá “linha direta” com o governo federal. Na quinta-feira, 5, o presidente afirmou que, se eleito, Wagner “tem tudo para fazer uma boa administração e renovar a política do município, que está precisando”. A liderança do candidato do PROS é ameaçada por José Sarto (PDT), apoiado pelos irmãos Cid e Ciro Gomes, políticos de oposição ao governo federal. De acordo com a pesquisa Ibope divulgada no dia 3 de novembro, Sarto, com 29% das intenções de voto, está numericamente à frente de Wagner, com 27%. Embora não lidere a corrida pela Prefeitura de Fortaleza, o capitão é um bom exemplo de postulante aliado a Bolsonaro que segue vivo na disputa.