Organização existe desde 2004, mas a sua história começou no fim dos anos de 1980, com a chegada de três freiras do Canadá que incentivaram as agricultoras de Uauá, Canudos e Curaçá a irem em busca de sua própria renda. Cooperativa baiana formada por maioria de mulheres produz doces com frutas nativas da caatinga
Arquivo pessoal/Denise Cardoso/Jussara Dantas
Fundada em 2004, na Bahia, em grande parte por mulheres, a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) se tornou uma referência na produção orgânica de frutas nativas da caatinga, como o maracujá e o umbu, que é o carro-chefe da casa.
Sua árvore, o umbuzeiro, está ameaçada de extinção, e, por isso, tem sido preservada e multiplicada pelas comunidades rurais da Coopercuc, que tem como um dos seus princípios a convivência com a diversidade do semiárido.
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Dos 270 agricultores familiares cooperados, 70% são mulheres. Elas transformam as frutas das colheitas em doces, geléias e polpas que, além do Brasil, já foram degustadas em mercados como a França, Itália, Áustria e, mais recentemente, Alemanha.
Cooperativa fundada por mulheres do semiárido baiano preserva a caatinga
Apesar de ter sido idealizada por mulheres, a Coopercuc só foi ter uma presidente em 2016, quando Denise Cardoso, de 31 anos, assumiu a gestão da organização com apenas 26 anos.
Nascida da comunidade de Caladinho, em Uauá, e formada em administração de empresas, Denise começou a ganhar o seu próprio dinheiro com 18 anos, quando se associou à cooperativa.
Sua trajetória, porém, é bem diferente das mulheres rurais que vieram antes dela.
“Aqui no semiárido, no meio das comunidades, os homens eram, de verdade, donos das mulheres. Elas não podiam estudar, porque os maridos não deixavam. E elas não podiam trabalhar porque, a partir do momento em que elas trabalhassem, elas deixariam a casa”, conta Denise.
Chegada das 3 madres
Tudo começou a mudar com a chegada de três freiras católicas canadenses ao município baiano de Uauá, em 1986: Monique Fortier, Martha D’aoust e Jaqueline Aubly.
Elas faziam parte do movimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), uma vertente da Igreja Católica que teve uma participação importante na formação religiosa e na organização social e política das populações mais pobres, principalmente durante a ditadura militar.
Da esquerda para direita: freiras Monique Fortier, Grâce Leblanc, Marta D’ Aoust e Jaqueline Aubry, em Uauá, em1987
Arquivo pessoal/Jussara Dantas
Em 1986, as três freiras começaram a construir uma nova história junto com as agricultoras e os agricultores de Uauá, depois em Canudos e Curaçá.
“Elas (as freiras) saíam pelas comunidades fazendo formação comunitária. Nesse sentido, quando a gente fundou a Coopercuc, todo mundo já entendia o que era socioativismo e como funcionavam as decisões coletivas”, conta Denise.
Monique, Martha e Jaqueline também começaram a incentivar as mulheres de Uauá a terem a sua própria renda e a participarem das decisões de suas comunidades, em uma época onde não havia presença feminina nas associações rurais e nos movimentos sociais.
“As madres diziam ‘olha, mesmo em casa, criem a galinha de vocês, façam a horta de vocês, colham o umbu, tenham o seu sustento, para não depender somente dos seus maridos’”.
E elas faziam isso nos encontros da igreja. “Os homens achavam que as mulheres estavam indo estudar a bíblia, mas, mais do que isso, as irmãs estavam fazendo uma transformação social na cabeça das mulheres. Essa é uma história muito marcante na Coopercuc”, ressalta Denise.
A freira Marta D’ Aoust, a primeira à direita, junto com outras madres em um dos encontros de mulheres da igreja, no ano de 1990
Arquivo pessoal/Jussara Dantas
Permissão para sonhar
A presidente da cooperativa nasceu dois anos depois de as madres canadenses chegarem. E, apesar de elas terem ido embora em 1997, outras missionárias foram chegando com mesma proposta, o que fez com que Denise crescesse com um pouco mais de liberdade para sonhar com uma vida diferente de sua mãe.
“Eu ia ouvindo aquilo que elas (as madres) falavam. Minha mãe, que conviveu com elas, dizia sempre assim: ‘Minha filha não case cedo como eu casei. Vai ter um futuro, estudar, trabalhar”, conta Débora.
“Eu achava tudo aquilo que minha mãe passava um sofrimento. E eu queria fazer diferente e fiz. Para você ter uma ideia, eu estou com 30 anos, não casei e não tive filhos ainda. E minha mãe se casou com 16 anos, porque o meu avô não queria que ela se ‘perdesse na vida’”, relata.
Visita da madre Monique Fourtier, em 2009, às comunidades de Uauá. Jussara Dantas à direta de azul.
Arquivo Pessoal/Jussara Dantas
A trajetória de outra sócia da Coopercuc, Jussara Dantas, de 39 anos, também foi transformada pelas madres. Hoje à frente da Secretaria de Educação do Município de Uauá, ela é geógrafa, psicopedagoga e faz mestrado em desenvolvimento do semiárido, tendo, inclusive estudado na Alemanha.
“As madres me permitiram sonhar com outras coisas. Uma vez elas me perguntaram se eu queria dirigir, mas aquilo era algo distante pra mim. Era raridade encontrar uma mulher dirigindo em Uauá. […] Quando eu passava aqui de carro, todo mundo ficava admirado”, relembra Jussara.
Mas não foi somente a vida das mulheres que elas transformaram. “As madres trabalhavam muito com a conscientização dos meninos jovens também, porque muitos deles queriam sair de suas comunidades para trabalhar fora. E elas ensinavam a valorizar o semiárido”, conta Denise.
Início da produção de doces
Doce de umbu vendido atualmente pela Coopercuc
Divulgação/Coopercuc
Depois de terem dado impulso à organização das comunidades dos três municípios baianos, Monique, Martha e Jaqueline decidiram partir para uma outra missão em 1997.
Antes disso, cuidaram para que outras instituições dessem prosseguimento ao trabalho que, dessa vez, passaria a ser mais focado na produção de frutas e preservação da caatinga.
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Elas organizaram, portanto, a chegada do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) à região, uma ONG que atua com técnicas de manejo apropriadas à vegetação e ao clima do semiárido.
Em 1997, as mulheres das comunidades de Uauá, Canudos e Curaçá receberam, por parte do Irpaa, um curso de beneficiamento de frutas do semiárido.
“Minhas tias e minha mãe participaram e aprenderam a fazer compotas, doces, geléias. E, a partir desse curso, meus pais começaram a fazer os doces em casa e a gente botava nos potinhos para levar para as feiras livres. Esse foi bem o início da cooperativa”, conta Denise.
Árvore sagrada do sertão
Umbuzeiro é conhecido como a “árvore sagrada do sertão”
Arquivo pessoal/Adilson Ribeiro
Outras famílias também começaram a produzir doces, usando, principalmente, as frutas nativas da caatinga, que é um dos biomas do semiárido. Dela, nascem, por exemplo, o maracujá da caatinga e o umbu.
Umbu se destaca no mercado agrícola
Em Tupi Guarani, umbu se chama Ymb-u ou a “árvore que dá de beber”, pois as suas raízes acumulam água, o que faz com que o umbuzeiro consiga sobreviver em épocas de grandes secas.
A safra do umbu começa no fim de dezembro e vai até abril.
“A época do umbu sempre foi muito boa para nós. É época de dinheiro extra. Quando eu era, criança, meus pais usavam os recursos do umbu para comprar material escolar e roupas”, lembra Denise.
Umbu é fruta nativa da caatinga nordestina
Divulgação/Coopercuc
Fundação e crescimento
A produção e a comercialização dos doces por parte das agricultoras e agricultores de Uauá, Canudos e Curaçá começou, desde 1997, a ser realizada em um formato de cooperativa.
Mas foi somente em 2004 que a Coopercuc foi fundada e formalizada a partir de um CNPJ. Nesse período, os associados construíram pequenas unidades de beneficiamento nas 13 comunidades rurais da organização.
Essas unidades são locais de recepção das frutas da colheita da agricultura familiar, onde as mulheres produziam, artesanalmente, os doces.
Agricultoras da Coopercuc trabalhando na colheita de umbu
Divulgação/Coopercuc
Depois de sua fundação, a cooperativa cresceu com o impulso, principalmente, do mercado público, sendo contemplada por políticas do governo do estado da Bahia e de âmbito federal, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que compra alimentos da agricultura familiar para serem distribuídos entre pessoas em situação de insegurança alimentar, e para escolas públicas.
A Coopercuc também começou a ultrapassar fronteiras logo no seu primeiro ano de fundação, quando foi convidada para participar de uma feira de ‘slow food’ na Itália, a Terra Madre.
A partir desse evento, a organização começou a exportar esporadicamente para a Itália, França e Áustria até cerca de 2008, ano em que as economias europeias foram impactadas por uma crise financeira mundial.
Primeira mulher na liderança
Denise Cardoso, presidente da Coopercuc
Divulgaçã/Coopercuc
Apesar de ter sido mobilizada pelas mulheres, a Coopercuc só foi ter uma mulher na presidência em 2016, mesmo ano em que a cooperativa inaugurou a sua primeira agroindústria, que fica em Uauá, e que hoje centraliza a fabricação dos doces e o processo de embalagens.
Adilson Ribeiro, que antecedeu a Denise no comando da cooperativa, diz que o nome da agricultora sempre foi o preferido para assumir a cooperativa.
“Nós sabíamos da importância disso (de ter uma mulher na presidência) pela história da cooperativa. E a Denise cresceu e trabalhou na cooperativa. É filha de agricultores, mulher, negra, jovem e com o Ensino Superior. Eu só estudei até a 4ª série do ensino fundamental, na minha época não tinha muita oportunidade”.
Primeira agroindústria de processamento de frutas de projeto da Coopercuc é inaugurada
Denise também já era, em 2016, uma liderança nas comunidades rurais da região. Isso ocorreu porque, bem antes, em 2007, ela conseguiu um emprego no Irpaa, onde realizou o mesmo “trabalho que as madres faziam antigamente”, que era o de conscientizar os agricultores a conviverem melhor com o semiárido.
Ela também se associou à Coopercuc no mesmo ano, quando fez 18 anos e, por lá, chegou a trabalhar desde à colheita até no beneficiamento de frutas.
“Quando eu comecei a cursar administração, eu comecei a enxergar a Coopercuc de uma outra forma. E vi que poderia existir um caminho para mim na gestão”, diz Denise.
Denise Cardoso durante a vitória de sua eleição, em 2016, quando assumiu a presidência da Coopercuc
Arquivo pessoal/Denise Cardoso
“Mas logo desisti, porque já tinha muita gente lá dentro, e decidi buscar outros caminhos”. Em 2015, ela se mudou para Salvador para trabalhar no governo do estado da Bahia, mas não se adaptou à vida da cidade. Retornou em 2016, a pedido de Adilson, para concorrer à presidência da Coopercuc.
Denise foi bem aceita pela cooperativa e venceu as eleições por 144 votos de um total de 145.
“Foi um dos maiores desafios da minha vida. Quando eu fui eleita, ia completar 27 anos (…) Durante um tempo, tive que lutar para ganhar respeito entre alguns funcionários antigos da cooperativa, homens mais velhos do que eu, que me viram crescer dentro da cooperativa”, diz.
Integrantes da Coopercuc no dia da eleição de Denise Cardoso, em 2016
Arquivo pessoal/Denise Cardoso
Em sua gestão, ela deu prosseguimento ao trabalho que já vinha sendo feito, mas com um foco mais forte em divulgação e comercialização dos produtos da Coopercuc.
Como a organização deixou de ser contemplada, a partir de 2016, por grandes programas públicos como o PAA, o objetivo da atual na gestão é abrir mais mercados no setor privado, e manter as parcerias já existentes com ONGs e governos.
Atualmente, a Coopercuc já faz vendas para grandes redes de supermercados no país, mas em um volume pequeno.
Coopercuc exportou para a Alemanha, em agosto de 2020, o seu doce de banana com maracujá
Divulgação/Coopercuc
Em agosto deste ano, a organização chegou a exportar doce de banana com maracujá para a Alemanha, por meio de uma parceria com uma empresa do país europeu, a Toda Vida, que apoia projetos de agricultura sustentável no Brasil.
Agrocaatinga
Além da compra, a companhia alemã investiu recursos em um projeto da Coopercuc chamado Agrocaatinga, que atua na preservação e na recuperação do bioma, e que recebe investimentos também de uma multinacional francesa.
A técnica da Coopercuc, Taiane Souza, conta que a iniciativa contempla, principalmente, as fazendas de agricultores familiares que estão degradadas.
“Nós ensinamos às agricultoras e agricultores as técnicas específicas de manejo da caatinga. Como fazer uma curva de nível, por exemplo, processo que permite que o solo retenha água e segure a umidade, algo muito importante, devido à escassez de chuvas na caatinga, explica Taiane.
Área destinada ao projeto Agrocaatinga da Coopercuc
Reprodução/@ater_coopercuc
O projeto também incentiva os cooperados a diversificar a sua horta, plantando também feijão, milho, algodão, melancia. “Assim a gente mantém eles engajados e motivados a permanecerem no campo”, diz a técnica.
A preservação da caatinga na região trouxe, por consequência, a valorização do umbu.
“Em 2003, a saca de 60 quilos era vendida por R$ 3. E hoje já chegou a atingir o pico de R$ 150, R$ 200”, diz Denise.
Apesar de as madres não terem participado de toda essa construção da cooperativa, Denise conta que não tem como elas não serem associadas à Coopercuc.
“Foram elas que nos deram as bases de formação social, noção de participação política e nos ensinaram a conviver com o semiárido. (…) Nós temos antigas cooperadas que, mesmo aposentadas, não perdem uma assembleia da cooperativa. As freiras marcaram muito a nossa história”, afirma a líder da cooperativa.
Segundo Jussara, a freira Martha já é falecida, enquanto as madres Monique, de 83 anos, e Jacqueline, 76, vivem, atualmente, no Canadá.
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Cooperativa fundada por mulheres do semiárido baiano preserva a caatinga