O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, deve criar fontes bipartidárias para garantir um mínimo de governança pelos próximos anos. É isso o que avalia a coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP, Fernanda Magnotta. Porém, isso não deve ser exatamente um problema para ele. Ainda que o Senado sinalize uma maioria republicana até o momento, membros da oposição no Congresso americano já reconheceram sua vitória. “Essa é uma excelente mensagem. Os EUA tem uma distribuição de competências e divisão de poderes em que ninguém consegue fazer nada sozinho. Biden sabe que vai enfrentar uma série de restrições, então é necessário estabelecer esse diálogos.”

Em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, Magnotta avalia que o discurso de Biden, até o momento, é uma questão de sobrevivência política. “Tudo o que ele tem dito em público é que vai governar para todos. Ele olha com empatia aos outros eleitores, fala em diálogo”, explica. Para ela, o posicionamento de Donald Trump em não reconhecer a derrota já era esperado. “Trump vai seguir a diante com essa estratégia porque é uma forma de tentar buscar uma espécie de ‘saída digna’ da Presidência. Ele não está acostumado a perder, é uma figura narcisista e tem dificuldade em lidar com isso. Foi mais uma estratégia para não sair por baixo do que uma tentativa de negação do partido.”

De acordo com a coordenadora de RI da Faap, em toda democracia existem figuras que se sentem injustiçadas ou prejudicadas — e essas pessoas tem direito de contestar os resultados e solicitar revisões na Justiça, “Não tem problema Trump ir adiante se tiver materialidade. O problema é que os próprios republicanos já entenderam que, além dos elementos objetivos, tem muito mais uma coisa de discurso. Trump perdeu, nos últimos dias, quase todos os processos iniciados nos estados. É importante entender como as figuras políticas vão continuar se posicionando”, destaca Fernanda.

E o Brasil?

Fernanda Magnotta declarou, no entanto, que por mais que o presidente Jair Bolsonaro insista em não se manifestar quanto à vitória de Biden, é importante ter cautela quanto às questões ambientais porque isso pode ser um problema real para o Brasil. “Biden vai ter quatro prioridades agora: a pandemia da Covid, a recessão econômica, as mudanças climáticas e a revisão das estratégias de políticas externa. Ou seja, independente do Brasil, essa é uma prioridade do novo governo e tem muito a ver com as preferências dos próprios democratas”, lembrou.

O Brasil foi citado no primeiro debate entre Biden e Trump de forma negativa no contexto da Amazônia e o novo presidente deve cobrar o país nessa questão — assim como a Europa já faz. “Não é apenas uma matéria moral, mas também econômica e que tem muito a ver com o ambiente de negócios. Como somos um país agroexportador, podemos sofrer demais. Não dá para prever o que vai acontecer, mas essa é uma mensagem muito clara e que não dá para ignorar”, finalizou Fernanda.