Gabriella Talhaferro é uma jovem estudante do primeiro ano do Ensino Médio (ensino secundário no Brasil). Vive com a família num apartamento no bairro Vila Virgínia, em Itaquaquecetuba, cidade localizada na região de Grande São Paulo.

No passado sábado, Gabriella tinha combinado encontrar-se com 15 amigos para ir até ao Baile do Beira Rio, uma festa funk de rua que reúne centenas de jovens nas madrugadas de sábado para domingo, na região de Guaianases, na zona leste da cidade de São Paulo. Era a segunda vez que ia àquele baile e saiu de casa “muito contente”, revelou a adolescente ao site brasileiro Ponte Jornalismo.

Mas uma noite que era para ser de festa terminou em pesadelo. Chegados ao local do baile, os jovens foram avisados de que o evento não seria realizado, uma vez que se encontrava ali a Polícia Militar desde as primeiras horas da tarde, a impedir a sua realização.

Mesmo sem o baile, Gabriella e os amigos decidiram permanecer no local, porque já era meia-noite e não tinham como voltar para casa, já não havia transportes. Por volta das 2 horas da madrugada, agentes do 28.º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano começaram a dispersar os pequenos grupos que lá se encontravam com bombas, exigindo que deixassem a zona.

“Nessa hora fomos até à estação para tentar ir embora, mas os guardas não deixaram a gente ficar, então voltamos”, recorda Gabriella. Quando voltaram ao local, os jovens decidiram ficar em frente a uma adega, para evitar que os polícias confrontassem o grupo. Foi então que o pior aconteceu.

“Estava em frente à adega quando levei o tiro. Eles vieram na viatura, pararam na rua e quando virei o rosto o polícia atirou. Estavam bem na minha frente. Ele estava dentro da viatura. Nem desceu. Mirou no meu rosto e atirou”, conta a jovem. Os quatro polícias que seguiam num carro da corporação pararam mais à frente. Gabriella estava ensanguentada, com muitas dores e a vomitar, quando os agentes terão recusado atendimento médico e um deles até se riu da situação.

“Pedimos para eles ligarem para o socorro e disseram ‘se vira’ [‘desenrasca-te’]. Um ainda me disse ‘vá se f**er’, enquanto o outro dava risada. Sou capaz de reconhecer todos: o que atirou em mim, o que me xingou [insultou] e o que dava risada. Não sai da minha cabeça”, disse a jovem.

O socorro acabou por ser prestado por pessoas que estavam na adega, porque, antes de ser baleada, Gabriella perdeu-se dos amigos e tinha o telemóvel sem bateria. O dono da adega ligou para um motorista da Uber, que a levou às urgências. Como a UPA (unidade de pronto atendimento) de Itaquera não tinha um médico especializado para aquela emergência, a jovem foi conduzida até um hospital público, onde também não pôde ser atendida.

Gabriella só recebeu tratamento por volta das 6 horas da madrugada de domingo, quando chegou ao Hospital São Paulo, a cerca de 30 quilómetros do local onde foi baleada. Segundo a mãe de Gabriella, foi realizada uma cirurgia de emergência, mas não se conseguiu evitar a perda da visão do olho esquerdo.

Tem de fazer curativo de hora em hora

“Agora que está em casa precisamos fazer a troca do curativo e pingar um colírio de hora a hora. Já um outro colírio é aplicado a cada quatro horas. Esse é mais doloroso e incómodo para minha filha”, explicou Kelly Talhaferro, que disse já ter gasto 200 reais (cerca de 43 euros) em medicamentos. A jovem deve voltar esta quinta-feira ao Hospital São Paulo para continuar o tratamento, que pode resultar na remoção do globo ocular. Gabriella não pretende voltar à escola este ano.

“O que me dói é que não estavam em guerra contra bandidos. São adolescentes. Pesquisei e vi que a minha filha não foi a única a ser baleada nessas condições. E todos os baleados foram no olho esquerdo e nunca um culpado foi punido”, lamentou a mãe da vítima.

Segundo os regulamentos da Polícia Militar, as balas de borracha só devem ser usadas em casos restritos contra um “agressor ativo, certo e específico” e nunca de forma aleatória contra uma multidão. É considerado errado usar essas balas para dispersar manifestantes e, se forem disparadas, o tiro deve ser dado a 20 metros do alvo, de forma “precisa” e “direcionado para os membros inferiores do agressor ativo”.

Gabriella garante que nunca mais irá a um baile funk e que agora entende a revolta de algumas pessoas com a polícia. “Fizeram isso porque são ruins. Fazem isso com qualquer pessoa. Achava normais as notícias de polícia em baile funk até acontecer comigo. Quando ouvia relatos, a primeira coisa que dizia era que a pessoa não tinha que estar lá. Eu não estava a fazer nada”, lembra a adolescente.

O futuro é uma incógnita, mas Gabriella não pensa em desistir. “A ficha ainda não caiu. Achava que a minha vida tinha acabado, estava a culpar-me muito. Mas não tenho culpa. Não pedi para isso acontecer. Saí de casa toda feliz. A minha vida não pode acabar por causa disso”.

Caso denunciado nas redes sociais

Darlan Mendes, ativista dos direitos humanos, denunciou a situação com uma publicação na sua página de Facebook, com um vídeo do momento dos disparos e fotos da lesão de Gabriella. Darlan tem prestado apoio à família e afirma que não adianta proibir os bailes de funk se o governo não dá uma solução. “É a opção de lazer noturna, nossa juventude realmente gosta de curtir a vida, sair e se divertir. Não dá para aguentar mais essa política de que tudo se resolve na bomba e na paulada”, criticou o ativista ao site Ponte Jornalismo.

“Temos que reforçar que é importante denunciar não só casos como o da Gabriella, mas também agressões verbais e físicas. Muitos policiais usam golpes na costela para não deixar marcas, obrigam a sentar nas mãos entrelaçadas, ou invadem a privacidade em abordagem, obrigando a pessoa a colocar a senha no celular [telemóvel] e deixar ver suas redes sociais e fotos”, acrescentou Darlan.

O provedor das polícias de São Paulo, Benedito Mariano, afirmou que mãe e filha aguardam para serem ouvidas e registarem a denúncia. Em comunicado, a Secretaria da Segurança Pública informou que “a Polícia Militar esclarece que, em 9 de novembro, policiais do 28.º BPM/M realizavam a operação ‘Noite Tranquila’, com o objetivo coibir ocorrências de perturbação de sossego, quando foi necessário o uso de técnicas de controlo de distúrbios para conter a multidão”.

“Até o término da ocorrência não havia relato de pessoas feridas, mas, ao tomar conhecimento do caso citado pela reportagem, o Comando do 28.º Batalhão Metropolitano instaurou procedimento apuratório para investigar as circunstâncias. Até o momento, a Polícia Civil não localizou registo de boletim de ocorrência sobre o facto”, acrescenta o comunicado.

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