E ao segundo dia pós libertação Lula da Silva pediu à juventude para sair à rua seguindo o exemplo do Chile: “A juventude ou briga agora ou o futuro será pesadelo.” E promete: “Esse jovem de 74 anos estará na rua junto com vocês para a gente não deixar destruir o nosso país.” É um Lula guerreiro, comandante de exércitos, o que saiu da prisão.

© REUTERS

“Nós só iremos salvar este país se a gente tiver coragem de fazer um pouco mais. O que fizeram no Chile é o modelo do que o Guedes [Paulo Guedes, ministro da Economia] quer fazer aqui, a aposentadoria que querem fazer aqui é a que fizeram no Chile, e está a fazer com que pessoas velhas morram porque não têm salário. É por isso que no Chile o povo está na rua. Já tem 20 jovens cegos que perderam um olho. Já prenderam mais de 1000 pessoas. E o povo tá indo na rua. Porque o governo que é eleito não é eleito para destruir, é eleito para governar. (…) Esse país não merece o governo que tem. Temos de estar na rua e sobretudo a juventude. A juventude ou briga agora ou o futuro será pesadelo. Nós vamos fazer muita luta. E luta não é um dia e passado meses depois voltar. Não, luta é todo o dia. Este jovem estará na rua junto com vocês. Para não deixar destruir o nosso país. Pode contar comigo -porque a única coisa que não vou fazer na vida é trair a confiança que vocês têm em mim.”

Não há possibilidade de dúvida: este sábado, Lula da Silva, o ex presidente do Brasil que na sexta-feira foi libertado, por ordem judicial. ao fim de 580 dias preso, voltou à sede do sindicato dos metalúrgicos de que foi dirigente, em São Bernardo do Campo, São Paulo, a mesma de onde saiu para se entregar à Polícia Federal a 7 de abril de 2018, para fazer uma declaração de guerra a Bolsonaro.

“Eles não sabem, não sabem o tesão com que eu tou para brigar por esse país. Não sabem. A gente tem de seguir o exemplo do povo do Chile, da Bolívia. A gente tem de resistir. Na verdade não é resistir. É lutar, atacar e não apenas se defender. A gente tá muito tranquilo.”

contra a distribuição de armas do Bolsonaro, nós vamos distribuir livros, emprego, acesso à cultura. É esse país que nós queremos e sabemos como construir.”

Prometendo que em 2022 “a chamada esquerda de que Bolsonaro tem tanto medo vai derrotar a ultra-direita que nós tanto queremos derrotar”, garantiu: “Não tem ninguém que conserte esse país se vocês não quiserem consertar. Não adianta. A gente tem de ter a seguinte decisão: este país é de 210 milhões de habitantes e a gente não pode permitir que os milicianos acabem com este país que nós construímos. Eu quero que esta gente saiba que este país é nosso. Eu não posso aos 74 anos ver destruir este país que nós construímos. Não posso ver aumentar o número de pessoas dormindo na rua. Não posso ver mais jovens de 14, 15 anos a ser violentado e assassinado pela polícia, às vezes inocente e outras porque roubou um celular. Se as pessoas tiverem onde trabalhar, se as pessoas tiverem salário, se as pessoas tiverem onde estudar, se as pessoas tiverem acesso à cultura, a violência vai cair. E nós temos de dizer: contra a distribuição de armas do Bolsonaro, nós vamos distribuir livros, emprego, acesso à cultura. É esse país que nós queremos e sabemos como construir.”

Foram cerca de 50 minutos emocionados e emocionantes de um discurso no qual, com humor, pediu compreensão a quem o ouvia: “Gente, vamos ter paciência, porque eu fiquei 580 dias sem falar. E agora quero falar (…). Tenho de terminar senão porra vocês vao dizer: prende o Lula outra vez que ele está falando mais.”

Um discurso em que certificou ter estado nos seus 580 dias preso a “preparar-se espiritualmente para não ter ódio” e não ter saído da prisão, como alguns esperavam, “mais radicalizado” e “com ódio”, para a seguir carregar sobre os seus inimigos. “Estou livre como um passarinho e toda a noite durmo com consciência tranquila dos homens honestos. Duvido que o Moro durma com a consciência tranquila como eu. Duvido que o tal de Dallagnol durma… E duvido que o Bolsonaro durma com a consciência tranquila que eu durmo. E quero dizer para eles que estou de volta.”

Ainda assim, advertiu, a batalha ainda agora começou. “Nós ainda não ganhamos nada. O que queremos agora é que seja julgado um habeas corpus que deu entrada no Supremo Tribunal Federal anulando todos os processos contra mim. Porque agora já existe argumento suficiente para provar — e falo isso sem nenhum rancor: o Moro é mentiroso. o Dallagnol é mentiroso. Não é por causa do Intercept [o site de notícias que iniciou este verão a revelação das conversas entre Moro e procuradores da Lava-Jato que ficou conhecida como Vaza-Jato]. É por causa do que eles [advogados] escreveram na minha defesa. Tudo o que o Intercept está falando agora já estava na minha defesa há quatro anos atrás. E só tem uma explicação para esse processo: para me tirar da disputa eleitoral.”

De seguida, apelidou o juiz Sérgio Moro de “canalha” e acusou o procurador Deltan Dallagnol e sua equipa da Lava-jato de terem usado o processo para “roubar”. “Quero repetir aqui hoje uma coisa que falei naquele dia [quando se entregou para ser preso]: quando um ser humano, homem ou mulher, tem clareza do que quer na vida e do que representam e de que os seus algozes e acusadores estão mentindo, tomei a decisão de ir lá. Para a Polícia Federal. Quando podia ter ido a uma embaixada, a outro país. Se eu tivesse saído do Brasiil seria tratado como fugitivo. Decidi ir para pertinho deles para enfrentar as feras para poder provar que o juiz Moro não era um juiz, era um canalha que estava me julgando. E precisava de provar que o Dallagnol não representa o Ministério Público que é uma instituição séria. O Dallagnol montou uma quadrilha com a força-tarefa da Lava-Jato, inclusive para roubar dinheiro da Petrobrás e das empreiteiras. E tinha a certeza de que os delegados que fizeram o inquérito contra mim mentiram em cada palavra que escreveram.”

Já contra Bolsonaro começou por reverter as acusações de corrupção que este lhe dirige, exigindo ao presidente que explique como pode, como salário de aposentado do exército e de deputado, possuir um património acumulado de “17 casas”. “Quero saber como esse cara junta dinheiro”, reclamou, quando, diz Lula de si próprio, “eu fui deputado e presidente e se virar de bunda para baixo não vai cair uma moeda do meu bolso.”

E invocou o homicídio de Marielle Franco, acusando Bolsonaro de estar a governar para proteger as milícias e de impedir a descoberta da verdade: “Tem gente que fala que é preciso derrubar o Bolsonaro. tem gente que fala impeachment. Tem gente que fala. Veja, esse cidadão foi eleito democraticamente e nós aceitamos o resultado da eleição. Tem um mandato de quatro anos. Mas ele foi eleito para governar para o povo brasileiro e não para os milicianos do Rio de Janeiro. Ele não pode fazer investigação do que eles fizeram para matar a Marielle. Não é a gravação do filho dele que vale [refere-se à gravação apresentada pelo filho de Bolsonaro como sendo a da portaria do condomínio onde Bolsonaro tem uma casa e no qual dois dos suspeitos do crime se encontraram no dia do assassinato; o porteiro afirmou que foi Jair Bolsonaro que, via telefone, deu autorização para a entrada de um deles, Elcio Queiroz, amigo da família Bolsonaro, no condomínio, e que há uma gravação que o prova]. É preciso que haja uma pericia séria. Ele não pode fazer investigação para que a gente saiba definitivamente quem foi que matou a nossa guerreira chamada Marielle, a grande vereadora do Rio de Janeiro. A grande companheira defensora das mulheres. Ele tem de explicar onde está o Queiroz.”

“A gente não pode fazer o jogo rasteiro, as brincadeiras, as hienas. Não temos de brigar com eles, de xingar eles não. Nós temos só de dizer em alto e bom som: não vamos permitir que destruam o nosso país.”

Apesar da dureza dos ataques, quando a multidão começou a gritar contra Bolsonaro pediu-lhe para não dirigir palavrões ao presidente do Brasil: “Eu não gosto disso, sabe porquê? Porque isso não pode ser chamado por nós. A gente não tem de falar palavrão para o Bolsonaro, ele já é um palavrão. A gente não pode fazer o jogo rasteiro, as brincadeiras, as hienas. Não temos de brigar com eles, de xingar eles não. Nós temos só de dizer em alto e bom som: não vamos permitir que destruam o nosso país.”

Num discurso no qual assegurou não ter medo de nada a não ser de desiludir os que acreditam nele – “o único medo que tenho é de mentir para o povo trabalhador que tanto acreditou” – e estar preparado para correr o Brasil para acordar a luta e ir para a rua participar dela, também anunciou, “assim que conseguir arrumar a minha vida”, querer casar com a mulher pela qual, diz, se apaixonou, sem esperar, aos 74 anos. Mesmo, se assegura, não quer mais nada que “construir este país com a mesma alegria que nós construímos quando governámos esse país. O meu sonho não é resolver os meus problemas. Eu hoje sou um cara que não tem emprego. Presidente não tem aposentadoria. Nem TV tenho no apartamento. Minha vida está toda bloqueada. Uma coisa tenho a certeza: tenho mais coragem para lutar que quando saí daqui. Lutar para tentar recuperar o orgulho da gente ser brasileiro.”

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